domingo, 15 de junho de 2008

Refletindo um pouco mais ...

Já foi contemplada aqui a discussão da visão sistêmica de mundo para que a mesma possa posteriormente fundamentar a pedagogia ecológica que estamos neste blog tentando construir. Mas há outra discussão de fundo teórico muito importante para esse fim. Trata-se de discutirmos em qual das correntes do pensamento ambientalista iremos nos apoiar. Segundo Sariego os autores Lago e Pádua no livro O que é Ecologia? classificam em quatro grandes correntes o pensamento ambientalista, a saber: ecologia natural, ecologia social, conservacionismo e o ecologismo. Sempre à luz da visão sistêmica de mundo analisemos então essas quatro correntes.

Conforme Sariego a ecologia natural de caráter técnico-científico preocupa-se em estudar o funcionamento dos sistemas biológicos nos níveis de organização. Surgiu a partir do positivismo e compreende a educação ambiental inserida nas tendências tradicionais e/ou tecnicista de ensino/aprendizagem. O saber está nos livros e o uso de laboratório e observação de campo objetivam apenas confirmar os conceitos apresentados nos livros.

A ecologia social ,outra corrente do pensamento ambientalista, também apóia-se na visão positivista de mundo, porém apresenta enquanto diferenciação da ecologia natural a preocupação com a relação entre homem e ambiente. Sariego nos conta que a ecologia social “acredita na compatibilização do modelo liberal-capitalista com a preservação do ambiente mediante ligeiros ajustes no primeiro; desenvolvendo a tecnologia de modo a usar menos recursos, emitir menos poluentes e reciclar todos os resíduos. A atual crise ambiental é interpretada como uma desarmonia provisória entre o homem e a natureza, fruto da ganância imediatista e, principalmente, da ignorância sobre a dinâmica da natureza” .

Com relação às tendências pedagógicas, se aproxima das teorias crítico-social dos conteúdos como bem as descreveu Libâneo em seu livro Democratização da escola pública: a pedagogia crítica-social dos conteúdo. Esta corrente pedagógica faz com que o aluno reflita sobre a sua vivência com as das diferentes realidades sociais a partir do conhecimento teórico.

Segundo Sariego “ nessa concepção pedagógica assume-se como conteúdo a descrição da natureza, tal como faz a Ecologia Natural, mas nunca deixa de apontar as ações humanas deletérias para o ambiente, o que inclui temas como poluição, desequilíbrio ecológico, alterações ambientais globais (como efeito estufa e redução na camada de ozônio) e desenvolvimento sustentado.”


Conta-nos Sariego que a corrente conservacionista objetiva a conservação total da natureza, desconfia do progresso tecnológico e as ações que dela advém não se fundamentam na ciência, mas em motivações de ordem emocional, estética e moral. Além disso, critica o modelo vigente mas não propõe nenhum projeto alternativo global.

Com influência anarquista, está próxima da tendência libertária de educação priorizando a auto-gestão, rejeitando “ qualquer forma de poder e de autoridade e considera secundário os conteúdos formais. O que na realidade importa é a vivência dos mecanismos de participação crítica. Isso determina uma metodologia baseada na vivência grupal da autogestão, pela qual o grupo de educandos decidem o que estudar, cabendo ao professor um papel de conselheiro. Em termos concretos, essa metodologia promove as atividades de conscientização e denuncia, tais como passeatas, debates, júris simulados, organização de ONGs e elaboração de jornais e boletins.”

A última corrente é o ecologismo. Para Lago e Pádua (1985,p1), segundo Sariego , o ecologismo apresenta-se como um “projeto político de transformação social calcado em princípios ecológicos.”

A proposta do ecologismo é uma ampla mudança social envolvendo desde a economia até os valores éticos ao perceber que as causas para a crise ambiental está fundada no modelo de civilização ecologicamente insustentável.

No campo da educação , segundo o que nos conta Sariego , o ecologismo é influenciado pela tendência libertadora, porque apoiada nos pressupostos marxistas de homem, sociedade e cultura, lhe é fundamental a prática social no processo educativo. É possível também aproximá-la da pedagogia progressista porque esta possui a dialética enquanto método de conhecimento propiciando perceber as contradições ambientais do modelo de sociedade burguesa.

O que há para ser destacado é que o ecologismo quando na prática escolar se manifesta renegando o racionalismo e positivismo e ,por outro lado, buscando valorizar mais os processos mentais, as habilidades cognitivas, a experiência e a vivência por meio das quais o aluno aprende a aprender tendo sempre em vista as questões das transformações econômicas com redução no impacto ambiental.

Penso que a pedagogia ecológica que aqui estamos construindo está mais próxima do ecologismo porque pretende-se construir uma nova visão de mundo que contemple a multiplicidade de olhares, ações e percepção sobre o fenômeno indivíduo/social/ambiental em busca de sua transformação.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Atenção: do que se trata ?

Repetidas vezes, aqui nesse blog, tenho enfatizado alguns conceitos tais como não-linearidade, complexidade, multiplicidade, redes, interdependência, conexões , porque me parece que esses , dentre outros ainda não citados, são conceitos chaves para uma mudança de visão de mundo.

Estes conceitos possibilitam um olhar, suponho e espero, mais crítico, ou seja, interrogativo junto a verdade do poder dos governos e de seus discursos sobre a verdade. O que nos levaria a compreender um mundo, seja natural ou social, também em seus conflitos, desigualdades e contradições.

Não é minha intenção pensar a respeito de uma possível pedagogia ecológica e/ou de uma possível Eco-Escola defendendo, explicita ou implicitamente, o determinismo biológico, o darwinismo social ou coisa que o valha. Como também discordo da visão paradisíaca da natureza, isto é, uma natureza vista como harmônica, colaborativa muito melhor,portanto, que as sociedades humanas, horríveis com seus conflitos e violência. Efetivamente não estou nessa. Razão pela qual enfatizo os conceitos acima e faço um alerta nesta postagem.

Minha atenção foi despertada para possíveis equívocos (tais como os descritos acima) de compreensão junto à idéia ou concepção da pedagogia ecológica que aqui estou construindo, quando li o texto intitulado Determinismo Biológico: o desafio da Alfabetização Ecológica na Concepção de Fritjof Capra de Philippe Pomier Layrargues. Nele o autor analisa os fundamentos, princípios e objetivos da Alfabetização Ecológica, com ênfase na concepção de Fritjof Capra, e discute os limites e possibilidades desse modelo educativo que chama de biologicista de educação ambiental.

Philippe tece as seguintes críticas, a meu ver , pertinentes e importantes: “ A Alfabetização Ecológica, na concepção de Capra, reside em dois pressupostos: (a)conhecer os princípios ecológicos básicos para deles extrair determinadas lições morais,para a seguir (b) transpor essa moralidade presente na natureza às formações sociais humanas, a fim de se retomar o rumo civilizacional em padrões sustentáveis. Esses pressupostos são passíveis de duas críticas: (a) a escolha eminentemente ideológica dos princípios ecológicos básicos, que obedecem a um critério segundo o qual a Natureza é considerada como um Bem em si, cuja natureza é essencialmente cooperativa e harmoniosa, como se também não fosse competitiva e conflituosa, e a Sociedade é compreendida como uma aberração da natureza humana, por abrigar princípios competitivos e conflituosos na regulação das formações sociais; e (b) em decorrência disso, desponta o caráter educativo da proposta da Alfabetização Ecológica, que resulta no uso equivocado do determinismo biológico.” (p.5)

Não vou aqui aprofundar esta questão porque neste momento apenas basta este alerta , mas sempre vale lembrar que a pedagogia ecológica ,a qual me refiro aqui , não se fundamenta no biologismo social ou darwinismo social, longe disso.