quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Pensando nos Espaços

Os espaços da Eco-Escola , deveriam contar, assim me parece, com usos múltiplos a fim de acolher atividades de pesquisa, seminários e criação em diferentes formatos. Além disso, não deveria ser destacado com muita evidência o fora e o dentro. Espaços vazados seriam bem vindos.

Encontrei no Centro de Grafologia de Santa Catarina as definições de figuras geométricas que achei interessante:


O quadrado é o símbolo da terra por oposição ao céu. É uma das figuras geométricas mais freqüentes e universalmente empregada na linguagem dos símbolos. Ao contrário do círculo, o quadrado é uma figura antidinâmica, sustentada por quatro lados. Simboliza também a interrupção, ou o instante antecipadamente retido. Muitos espaços sagrados tomam a forma quadrangular: templos, cidades, acampamentos militares, altares. É o símbolo do mundo estabilizado..

Vejam que interessante: “ o quadrado é uma figura antidinâmica...” Tudo o que não queremos é uma Eco-Escola inativa e sem movimento!

Ao contrário:




O círculo é basicamente a representação do Sol. Suas propriedades simbólicas comunicam perfeição, harmonia, ausência de distinção ou divisão. Em qualquer categoria de interpretação, o círculo se constitui na manifestação universal do Ser único e incriado. O círculo simboliza também o céu, de movimento circular e inalterável. O próprio céu, então, torna-se símbolo, o símbolo do mundo espiritual, invisível e transcendente.

Círculo é uma figura geométrica bem bacana. Parou para pensar?

Traz consigo aconchego, integração e dá a idéia de ser democrático, todos em seu entorno estão distantes do centro de forma igual. Além de nos remeter aos círculos da natureza.

A arquitetura indígena da taba com 4 ou 10 ocas também é uma sugestão bastante interessante. Círculos, evitando o quadriculamento com nos contou Foucault.

A cozinha poderia ter um fogão no centro e com possibilidades de ser transformada em refeitório, sala de aula, ambiente de bater papo descontraído (o que quase nunca ocorre nas escolas).

Bem, mas isso deixemos com os arquitetos que, sem dúvida, são bem mais criativos do que os pedagogos para imaginar um desenho arquitetônico apropriado para os fins aqui desejados.

Por curiosidade deixo aqui dois textos que encontrei para pensar sobre os círculos e outras cozitas mais:

Símbolos Linguísticos-Verbais e não verbais de Maria Lúcia Mexias-Simon
e
Mandala: um estudo na obra de C.G.Jung de Monalisa Dibo

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Continuando...

Para que seja possível engendrar uma pedagogia ecológica e, consequentemente, uma Eco-Escola, vimos que é necessário pensar na organização espacial de acordo com as premissas deste projeto educacional. Sendo assim, estamos discutindo a arquitetura de uma escola ecológica e para isso se faz necessário pensar nos espaços.
Uma escola convencional possui uma arquitetura mais ou menos assim (croqui bem sem vergonha esse meu!):



Analisando o croqui ao lado podemos, com esforço, observar as repartições, o quadriculado, à utilidade de cada espaço. Segundo Foucault, a era clássica acelera a arte das distribuições dos indivíduos no espaço, ou dizendo de um outro modo, a disciplina. “A primeira das grandes operações da disciplina é então a constituição de ‘quadros vivos’ que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas.” (pg.135- Vigiar e Punir/1995/Vozes).

Portanto, os espaços livres e libertos do quadriculado não teve vez na arquitetura das escolas até então porque o intuito, desde o século XVIII, era a disciplina, “organizando as ‘celas’, os ‘lugares’, e as ‘fileiras’ criam espaços complexos: ao mesmo tempo arquiteturais funcionais e hierárquicos”. (idem)

Se até aqui falamos de conceitos tais como rede, não linearidade, multiplicidade, hipertexto, complexidade, sistema, estamos dizendo também que o quadriculado não tem vez no nosso projeto de construção. Não dá para projetar uma Eco-Escola como um quadro, assim como este retratado acima pelo meu pobre croqui. Como também não é possível projetar uma sala de aula cujos móveis se distribuem em fileiras horizontais e verticais.

Não dá porque o quadriculamento é : “ cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar, um indivíduo. Evitar as distribuições por grupos; decompor as implantações coletivas; analisar as pluralidades confusas, maciças ou fugidias...” “... Importa estabelecer as presenças e as ausências, saber onde e como encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis, interromper as outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades ou os méritos.” .... “ A disciplina organiza um espaço analítico.” (pg.131)

Mas aqui não é disso que se trata: uma rede, um hipertexto em que ponto começa e em qual termina? Estou indo por aqui ,salto para lá e para acolá, indo e vindo, vendo o todo no um. Liberdade para fazer conexões, inúmeras, múltiplas. Esta visão de mundo não concorda com uma arquitetura do controle e da disciplina manifestadas pela linearidade e pelo quadriculado.

Pois bem, sabemos o que não queremos, mas o que queremos, sabemos? Difícil é a ruptura com o conhecido, com a convenção, com o senso comum. Não dá nenhum trabalho aceitar pacificamente o que já está aí. E daí? A pergunta insiste: como projetar um edifício que manifeste a concepção ecológica que pretendemos aqui?

domingo, 12 de outubro de 2008

Projeto de Construção de uma Eco-Escola

Andando por aí, porém com foco, encontrei um trabalho bem bacana de um pessoal de uma ONG de nome Núcleo de Amigos da Terra Brasil , de Porto Alegre, cujo tema é Centro de Referência para Edificações Sustentáveis em Meio Urbano

Achei muito interessante a metodologia aplicada para desenvolver um projeto de edificação sustentável e acredito que este projeto poderia se constituir enquanto sugestão para orientar um projeto de construção para uma Eco-Escola.

Como sou da área de educação, pouco sei de arquitetura, mas conhecer as etapas de um projeto de construção que pretende ser ecologicamente correto, economicamente viável e socialmente responsável é importante para atingir os objetivos aqui propostos.

Pois bem, o pessoal do Núcleo de Amigos da Terra Brasil contratou uma equipe que iniciou o projeto do Centro de Referência a partir de 4 etapas : levantamento de dados, estudo preliminar, anteprojeto e projeto executivo.

Iniciemos com a primeira etapa, o levantamento de dados: trata-se de conhecer os usuários e o contexto da Eco-Escola por intermédio de entrevistas e reuniões visando definir um programa de necessidades.

Entendo que para uma Eco-Escola seria muito promissor desenvolver esta primeira etapa envolvendo o corpo docente, a equipe técnica pedagógica, todos os demais profissionais que se fazem presentes em uma unidade escolar, além da comunidade do entorno da obra.

Se a Eco-Escola fosse uma iniciativa privada, seria preciso primeiro contratar o corpo docente e a equipe técnica, ou selecionar profissionais que estivesse de acordo com o projeto para participarem dele bem do início, ou seja, do primeiro tijolo. O mesmo procedimento poderia ocorrer se a iniciativa partisse da rede pública de ensino por intermédio da vontade manifesta dos professores, diretores escolares, dentre outros profissionais.

Seria bacana, não? Quando é que nós da educação somos chamados para discutir um projeto de construção do edifício-escola? Sim, não me esqueci de toda uma legislação que prescreve quantos metros deve ter uma sala de aula (salvo engano é um metro quadrado por aluno), orientações inclusive de metragem para quadra desportiva, laboratório de ciências, biblioteca e etc...Tudo bem. Mas quem tem que saber disso? Quem sabe isso? Em geral o Diretor Escolar orienta a obra conforme a legislação e os supervisores de ensino, alocados em suas Diretorias, aprovam ou não a solicitação de abertura de uma escola. Os professores e outros profissionais ao chegar para trabalhar já encontram a escola pronta, prontinha para funcionar e cabe a todos aceitar a convenção.

Refiro-me aqui a outra situação: quando é que paramos para pensar sobre a relação entre o projeto político/pedagógico e a arquitetura escolar? Elaboramos, supostamente, de forma coletiva o projeto político/pedagógico da escola, mas não pensamos se seus princípios estão ajustados com aqueles que orientaram o projeto arquitetônico.

Quem nos alerta para esta questão é Michel Foucault no seu livro
Vigiar e Punir especificamente no capítulo Corpos Dóceis.
Conta-nos Foucault que os presídios, os hospícios e as escolas possuem a mesma estrutura arquitetônica, justificada por um projeto comum de ordenamento, controle, da arte da distribuição. As estruturas arquitetônicas dos hospícios, das escolas, das fábricas, dos presídios de até então, comungavam um único pressuposto, a disciplina, que na maioria da vezes exige a cerca, o muro, a fileira , o quadro, sempre fechado. A distribuição e divisão dos espaços possuíam um rigor, por exemplo, o quadriculamento.

Já viu uma sala de aula? O piso é quadriculado, ou seja, 1 metro quadrado para cada aluno. Cabe aí uma carteira com uma cadeira, enfileirada horizontal e verticalmente. Os mais baixos e mais estudiosos à frente, os mais altos e menos estudiosos no fundo. À frente da classe o professor com sua mesa maior e posicionada à direita ou à esquerda do quadro negro. Esse ordenamento por fileiras no século XVIII, segundo Foucault, “começa a definir a grande forma de repartição dos indivíduos na ordem escolar."

Sendo assim, é preciso que uma nova organização espacial seja pensada que combine com um projeto ecológico/político/pedagógico cujos pressupostos se apóiam nos conceitos de visão de mundo que se faz sistêmica, multifacetada, complexa e em rede.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Arquitetura Ecológica

Dizem que arquitetura ecológica também pode ser denominada como bioarquitetura ou arquitetura sustentável, ou ainda , arquitetura verde , que segundo o Wikipedia “ procura utilizar maneiras de prevenir os impactos ambientais que podem ser gerados em uma construção.”

São objetos estratégicos da arquitetura ecológica o projeto, o planejamento, a pós-ocupação, a manutenção, o novo uso e o desmonte. São procedimentos de um movimento cíclico , como a vida, que inicia no nascimento, segue todas as etapas até a morte.

Cada detalhe é pensado para que o meio ambiente seja minimamente agredido, mas , sobretudo, que agrida em menor grau os trabalhadores que levantarão a obra e os futuros usuários da construção.

O fato é que há muito a ser explorado nesta área , mas também já temos em mãos inúmeras informações, sugestões e indicadores para construirmos , daqui pra frente, de forma socialmente responsável, ecologicamente correta e economicamente viável.

Como sempre acho importante contextualizar aquilo que falo ou que leio, ou que penso... enfim... indico um trabalho muito interessante que encontrei buscando pela internet dos autores Prof.Leopoldo Bastos e Profa Claudia Barroso-Krause Sustentabilidade e Arquitetura: histórico e abordagem do estado da arte

Eles apresentam um histórico da arquitetura x materiais até culminar na Eco 92 quando surge a questão do desenvolvimento sustentável. Depois seguem para o que chamam de evolução do conceito de arquitetura sustentável passando pela Agenda 21 , Protocolo de Kioto e Montreal terminado com métodos de avaliação e certificação. Bem interessante, vale a leitura.

Outra recomendação é dar uma passadinha no site da Ignez Ferraz e ler um texto bastante informátivo a respeito de arquitetura sustentável. Dá dicas sobre materiais de construção menos agressivos e apresenta fotos de construções de moradias possibilitando-me pensar com mais clareza a respeito de um projeto para uma Eco-Escola.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ainda continuo aqui...

Tempos difíceis esses.... estou tentando estudar a respeito do nosso assunto que é como criar uma Eco-Escola mas o tempo , sempre o tempo, anda me impedindo.

Creio que podemos começar com a infra-estrutura da Eco-Escola. Tenho pesquisado a respeito de materiais para construção e concepção arquitetônica ecológica e encontrei algumas informações interessantes, porém , como tudo isso é bastante novo estou penando um pouco para estudar e escrever a respeito.

Volto daqui a pouco , aguarde

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Como criar uma Eco-Escola ?

Faz um tempão que não entro aqui ... mil desculpas!

É duro fazer com que as coisas andem conforme a gente quer... será que dá pra ter controle? Não, não dá!! Sei bem o que é isso... abaixo o controle, deixar a vida nos levar .... Mas chega de embromar, vamos ao que nos interessa aqui.

Vejamos, onde parei? Ah! Sim....

A partir da discussão desse apanhado de teorias é possível perguntar: como poderá ser uma Eco-Escola ? Eu penso que ...

primeiramente deveríamos nos preocupar com o lugar , a ocupação mesma do espaço, do terreno, do território no qual se vai se construir a Eco-Escola;

concomitantemente planejar a escolha do projeto de construção e os materiais utilizados de tal forma que obedecessem os princípios de sustentabilidade, reciclagem, destinação final, critério de preservação e responsabilidade ambiental, materiais de resuso, técnicas de aproveitamento dos condicionantes naturais; tratamento de resíduos,

depois é preciso pensar nos móveis também utilizando o conceito de sustentabilidade, de resuso, enfim...;

em seguida pensar escrever o projeto político/pedagógico incluindo a organização do tempo/espaço das práticas de ensino

pensar no currículo incluído o sistema de avaliação

escolher o melhor perfil de profissional que seja um agente do projeto político/pedagógico da eco-escola

etc...

Acho que é isso, só pra começar .

domingo, 15 de junho de 2008

Refletindo um pouco mais ...

Já foi contemplada aqui a discussão da visão sistêmica de mundo para que a mesma possa posteriormente fundamentar a pedagogia ecológica que estamos neste blog tentando construir. Mas há outra discussão de fundo teórico muito importante para esse fim. Trata-se de discutirmos em qual das correntes do pensamento ambientalista iremos nos apoiar. Segundo Sariego os autores Lago e Pádua no livro O que é Ecologia? classificam em quatro grandes correntes o pensamento ambientalista, a saber: ecologia natural, ecologia social, conservacionismo e o ecologismo. Sempre à luz da visão sistêmica de mundo analisemos então essas quatro correntes.

Conforme Sariego a ecologia natural de caráter técnico-científico preocupa-se em estudar o funcionamento dos sistemas biológicos nos níveis de organização. Surgiu a partir do positivismo e compreende a educação ambiental inserida nas tendências tradicionais e/ou tecnicista de ensino/aprendizagem. O saber está nos livros e o uso de laboratório e observação de campo objetivam apenas confirmar os conceitos apresentados nos livros.

A ecologia social ,outra corrente do pensamento ambientalista, também apóia-se na visão positivista de mundo, porém apresenta enquanto diferenciação da ecologia natural a preocupação com a relação entre homem e ambiente. Sariego nos conta que a ecologia social “acredita na compatibilização do modelo liberal-capitalista com a preservação do ambiente mediante ligeiros ajustes no primeiro; desenvolvendo a tecnologia de modo a usar menos recursos, emitir menos poluentes e reciclar todos os resíduos. A atual crise ambiental é interpretada como uma desarmonia provisória entre o homem e a natureza, fruto da ganância imediatista e, principalmente, da ignorância sobre a dinâmica da natureza” .

Com relação às tendências pedagógicas, se aproxima das teorias crítico-social dos conteúdos como bem as descreveu Libâneo em seu livro Democratização da escola pública: a pedagogia crítica-social dos conteúdo. Esta corrente pedagógica faz com que o aluno reflita sobre a sua vivência com as das diferentes realidades sociais a partir do conhecimento teórico.

Segundo Sariego “ nessa concepção pedagógica assume-se como conteúdo a descrição da natureza, tal como faz a Ecologia Natural, mas nunca deixa de apontar as ações humanas deletérias para o ambiente, o que inclui temas como poluição, desequilíbrio ecológico, alterações ambientais globais (como efeito estufa e redução na camada de ozônio) e desenvolvimento sustentado.”


Conta-nos Sariego que a corrente conservacionista objetiva a conservação total da natureza, desconfia do progresso tecnológico e as ações que dela advém não se fundamentam na ciência, mas em motivações de ordem emocional, estética e moral. Além disso, critica o modelo vigente mas não propõe nenhum projeto alternativo global.

Com influência anarquista, está próxima da tendência libertária de educação priorizando a auto-gestão, rejeitando “ qualquer forma de poder e de autoridade e considera secundário os conteúdos formais. O que na realidade importa é a vivência dos mecanismos de participação crítica. Isso determina uma metodologia baseada na vivência grupal da autogestão, pela qual o grupo de educandos decidem o que estudar, cabendo ao professor um papel de conselheiro. Em termos concretos, essa metodologia promove as atividades de conscientização e denuncia, tais como passeatas, debates, júris simulados, organização de ONGs e elaboração de jornais e boletins.”

A última corrente é o ecologismo. Para Lago e Pádua (1985,p1), segundo Sariego , o ecologismo apresenta-se como um “projeto político de transformação social calcado em princípios ecológicos.”

A proposta do ecologismo é uma ampla mudança social envolvendo desde a economia até os valores éticos ao perceber que as causas para a crise ambiental está fundada no modelo de civilização ecologicamente insustentável.

No campo da educação , segundo o que nos conta Sariego , o ecologismo é influenciado pela tendência libertadora, porque apoiada nos pressupostos marxistas de homem, sociedade e cultura, lhe é fundamental a prática social no processo educativo. É possível também aproximá-la da pedagogia progressista porque esta possui a dialética enquanto método de conhecimento propiciando perceber as contradições ambientais do modelo de sociedade burguesa.

O que há para ser destacado é que o ecologismo quando na prática escolar se manifesta renegando o racionalismo e positivismo e ,por outro lado, buscando valorizar mais os processos mentais, as habilidades cognitivas, a experiência e a vivência por meio das quais o aluno aprende a aprender tendo sempre em vista as questões das transformações econômicas com redução no impacto ambiental.

Penso que a pedagogia ecológica que aqui estamos construindo está mais próxima do ecologismo porque pretende-se construir uma nova visão de mundo que contemple a multiplicidade de olhares, ações e percepção sobre o fenômeno indivíduo/social/ambiental em busca de sua transformação.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Atenção: do que se trata ?

Repetidas vezes, aqui nesse blog, tenho enfatizado alguns conceitos tais como não-linearidade, complexidade, multiplicidade, redes, interdependência, conexões , porque me parece que esses , dentre outros ainda não citados, são conceitos chaves para uma mudança de visão de mundo.

Estes conceitos possibilitam um olhar, suponho e espero, mais crítico, ou seja, interrogativo junto a verdade do poder dos governos e de seus discursos sobre a verdade. O que nos levaria a compreender um mundo, seja natural ou social, também em seus conflitos, desigualdades e contradições.

Não é minha intenção pensar a respeito de uma possível pedagogia ecológica e/ou de uma possível Eco-Escola defendendo, explicita ou implicitamente, o determinismo biológico, o darwinismo social ou coisa que o valha. Como também discordo da visão paradisíaca da natureza, isto é, uma natureza vista como harmônica, colaborativa muito melhor,portanto, que as sociedades humanas, horríveis com seus conflitos e violência. Efetivamente não estou nessa. Razão pela qual enfatizo os conceitos acima e faço um alerta nesta postagem.

Minha atenção foi despertada para possíveis equívocos (tais como os descritos acima) de compreensão junto à idéia ou concepção da pedagogia ecológica que aqui estou construindo, quando li o texto intitulado Determinismo Biológico: o desafio da Alfabetização Ecológica na Concepção de Fritjof Capra de Philippe Pomier Layrargues. Nele o autor analisa os fundamentos, princípios e objetivos da Alfabetização Ecológica, com ênfase na concepção de Fritjof Capra, e discute os limites e possibilidades desse modelo educativo que chama de biologicista de educação ambiental.

Philippe tece as seguintes críticas, a meu ver , pertinentes e importantes: “ A Alfabetização Ecológica, na concepção de Capra, reside em dois pressupostos: (a)conhecer os princípios ecológicos básicos para deles extrair determinadas lições morais,para a seguir (b) transpor essa moralidade presente na natureza às formações sociais humanas, a fim de se retomar o rumo civilizacional em padrões sustentáveis. Esses pressupostos são passíveis de duas críticas: (a) a escolha eminentemente ideológica dos princípios ecológicos básicos, que obedecem a um critério segundo o qual a Natureza é considerada como um Bem em si, cuja natureza é essencialmente cooperativa e harmoniosa, como se também não fosse competitiva e conflituosa, e a Sociedade é compreendida como uma aberração da natureza humana, por abrigar princípios competitivos e conflituosos na regulação das formações sociais; e (b) em decorrência disso, desponta o caráter educativo da proposta da Alfabetização Ecológica, que resulta no uso equivocado do determinismo biológico.” (p.5)

Não vou aqui aprofundar esta questão porque neste momento apenas basta este alerta , mas sempre vale lembrar que a pedagogia ecológica ,a qual me refiro aqui , não se fundamenta no biologismo social ou darwinismo social, longe disso.

sábado, 24 de maio de 2008

Primeiros caminhos para uma Eco-Escola

Dia anterior mencionei a possibilidade de construir uma Eco-Escola cujo fundamento seria a pedagogia ecológica. Não conheço nenhuma. Tenho conhecimento de empresas ou ONGs cujo objetivo é a educação ambiental e que se denominam Eco-Ecolas porque prestam serviços para instituições escolares por intermédio de programas de ensino.

Quando faço referência a uma Eco-Escola estou pensando em uma instituição escolar de Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio) que tenha matriz curricular, plano escolar, proposta pedagógica apoiada em uma pedagogia ecológica, de acordo com a LDB , cuja estrutura arquitetônica e funcionamento dos espaços/tempos estejam de acordo com uma comunidade sustentável.

Se nesses moldes ainda não encontrei nenhuma por aí, resta-me (e lhe convido a fazer o mesmo) pensar em como seria possível construir uma escola ecológica ou Eco-Escola apoiada na pedagogia ecológica ou quem sabe em uma eco-pedagogia, por que não ?

Para nos ajudar a ter idéias, apresento aqui o Centro de Ecoalfabetização , uma organização sem fins lucrativos, localizada em Berkeley, Califórnia, EUA, cujos diretores são: David Orr e Fritjof Capra. O objetivo deles é (na região em que se encontram, Área da Bahia) dar suporte a escolas que queiram oferecer experiências sobre o mundo natural para crianças, através de subvenções, atividade educacionais e um programa de publicações, visando enfrentar o desafio de criar comunidades sustentáveis, ou seja, comunidades que são projetadas de tal modo que os seus modos de vida, negócios, economias, estruturas físicas e tecnologias, não interfiram com a inerente habilidade da natureza para sustentar a vida.

É possível encontrar esclarecimentos do trabalho do Centro de Ecoalfabetização por intermédio do livro Ecoalfabetização, preparando o terreno Neste livro os diferentes autores, ligados ao Centro, abordam temáticas interessantes, nos dando indicações para uma possível efetivação da pedagogia ecológica em uma EcoEscola.

O primeiro objetivo do trabalho educacional do Centro de Ecoalfabetização é oferecer recursos para que seja construído o entendimento a respeito dos princípios da organização dos ecossistemas que sustentam a teia da vida. Isso é designado por eles de alfabetização ecológica ou ecoalfabetização, dizendo de um outro modo, o importante é ensinar os princípios da ecologia que para Fritjof Capra estão contemplados nos seguintes conceitos:

Redes = Todos os membros de um ecossistema são interligados em uma vasta e intricada rede de relacionamentos: a teia da vida.

Sistemas Alinhados = Através da natureza, nós encontramos vários níveis de estruturas de sistemas aninhados dentro de outros sistemas. Cada sistema forma um todo integrado com uma fronteira, ao mesmo tempo em que cada um faz parte de um todo maior.

Ciclos= As interações entre membros de uma comunidade ecológica envolvem a troca de recursos em ciclos contínuos, de forma que todo resíduo é reciclado por cooperação generalizada e incontáveis formas de parcerias.

Fluxos= O fluxo constante de energia solar sustenta a vida e dirige os ciclos ecológicos.

Desenvolvimento= O desdobramento da vida, que é manifestado como desenvolvimento e aprendizagem a nível individual e uma evolução ao nível das espécies, envolve uma interação de criatividade e adaptação mútua, na qual organismos e meio ambiente evoluem em conjunto.

Equilíbrio Dinâmico=Todos os ciclos ecológicos agem como um “círculo de realimentação”, de forma que a comunidade ecológica continuamente regula e organiza a si própria.”

Isso tudo tem a ver com uma visão de mundo por sistemas. Os tais conceitos de complexidade, multiplicidade, rede ou teia, não linearidade, interconexões estão contemplados nos acima citados por Capra.

Para resumir, teríamos que começar nossa pedagogia ecológica e , portanto, nossa Eco-Escola com uma frase: ver o todo no um !

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A crise planetária e as mudanças no ensino

Continuando.... A visão sistêmica de mundo, ou seja, o modo de compreender fenômenos sociais ou naturais como sendo sistemas complexos é o pressuposto de uma pedagogia que se pretende ser ecológica. Fazem parte desta visão de mundo conceitos, tais como: complexidade, multiplicidade, não linearidade, rede ou teia, interconexões, probabilidade , dentre outros.

Tudo isso que discutimos até aqui é muito importante nos tempos atuais, porque talvez a sobrevivência dos seres humanos dependa da mudança de paradigma que está em curso. Digo sobrevivência porque colocamos a espécie humana em risco ao criarmos toda esta parafernália tecnológica. Para saber mais a respeito da situação crítica que o planeta está vivendo, assista ao documentário Mudanças do Clima, Mudanças de Vidas: como o aquecimento global já afeta o Brasil do Greenpeace.

Segundo David Orr (educador ambientalista, um dos diretores do Centro para Ecoalfabetização localizado em Berkley, Califórnia, E.U.A.) as novas gerações precisarão desmontar o modo de pensar, os saberes e poderes que forjaram a industrialização da Terra, porque vivemos uma emergência planetária. As gerações futuras precisarão: estabilizar a população mundial; fixar e depois reduzir a emissão de gases que ameaçam mudar o clima — proteger a diversidade biológica; reverter a destruição de florestas e conservar o solo, cuja erosão diária atinge milhões de toneladas; utilizar melhor a energia e os materiais disponíveis; aprender a usar a energia solar sob todas as suas formas; eliminar a poluição e o desperdício; aprender a administrar recursos renováveis e a iniciar a imensa tarefa de restaurar, da melhor forma, os danos causados à Terra nos últimos 200 anos de industrialização.

Para Orr, frear esta situação caótica somente enfrentando o desafio da educação. A tarefa não é nada fácil, porque a organização do saber e do funcionamento de instituições de ensino, sejam escolas básicas ou universidades, se apóiam, até os dias de hoje, no modelo cartesiano/newtoniano e , consequentemente, no método taylorista.

Frederick W. Taylor, no início do século XX, elaborou um modelo que organizou e definiu o trabalho dos operários nas máquinas. Esse modelo produtivo instalado em todo o mundo ocidental, caracteriza-se por uma divisão do tempo, especialização e distinção estanque das atividades, trabalho regularmente prescrito, hierarquia das funções, das disciplinas, dos trâmites, normas de desempenho, controles padronizados, produção em massa de produtos em série.

Observando a escola ainda encontraremos este mesmo modelo atuando de diferentes formas : hora de entrada, o sinal para o intervalo, hora para ir ao banheiro, hora de português, a hora de falar imposta pelo professor, sinal para a saída. Esse tipo de organização temporal ,herança das comunidades monásticas , e adotada pela indústria, foi bastante útil para os propósitos do capitalismo de até então. Do mesmo modo, a disciplina escolar e a organização espacial dos alunos ,também de origem longínqua ,serviram aos interesses do modelo taylorista: as carteiras enfileiradas, comuns na grande maioria de salas de aula; “são espaços que realizam a fixação e permitem a circulação; recortam segmentos individuais e estabelecem ligações operatórias; marcam lugares e indicam valores; garantem a obediência dos indivíduos, mas também uma melhor economia do tempo e dos gestos.” (Foucault/1995/pg.135)

O local de trabalho e, portanto, dos assalariados, segundo o modelo taylorista é especificado por atividades prescritas, repetitivas, pouco qualificada, sujeita à separação entre procedimentos ,concepção e a execução. Do mesmo modo a escola mantinha (e sempre quer continuar a manter) seus alunos calados, memorizando atividades que se repetiam à exaustão, sujeitos aos humores de seus professores que , em contrapartida, estavam sujeitos aos humores da política escolar.

Eis que não dá mais para ser assim! David Orr nos diz no artigo Escolas para o Século XXI que “as habilidades, aptidões e atitudes necessárias para industrializar a Terra não são necessariamente as mesmas que vamos precisar para curar a Terra ou para estabelecer economias e comunidades sustentáveis. Os grandes desafios ecológicos requerem uma alteração das matérias, do sistema e dos objetivos do ensino, em todos os níveis (...).”

É possível que a pedagogia ecológica possa dar respostas para a construção de Eco Escolas organizadas de um modo completamente diferente das escolas de até então.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Visão Sistêmica II – Um tomate

Um documentário que gosto muito é o Ilha das Flores de Jorge Furtado e sempre que pretendo abordar a visão sistêmica e , portanto, construir conceitos tais com os de interelações, interconexões, redes e complexidade, em cursos que coordeno, sejam presenciais ou a distância , eu sempre indico este documentário que fala de um tomate. Confira o curta-metragem: Ilha da Flores – parte I e Ilha da Flores – Parte II .

Um tomate. Ora bolas, um tomate é um tomate. Assim, simples e banal. Portanto, sem pretensões de desencadear grandes discussões.Seria correto pensar o tomate dessa forma se, e somente se, nosso modo de compreender as coisas assumisse enquanto pressuposto a linearidade, a fragmentação, o reducionismo. Mas, em Ilha das Flores, Jorge Furtado, consegue ver no um o todo, razão pela qual um tomate é uma rede de conexões.

Dobra sobre dobra: o tomate jogado no lixo é a Ilha das Flores das crianças e mulheres que se alimentam da comida rejeitada pelos porcos. É também o Sr.Suziku, é a Dona Anete. É a troca, a mercadoria, a alimentação, o dinheiro. É a ilha, Porto Alegre, o cultivo, o supermercado, o perfume, as flores... É o tomate, vegetal e, ao mesmo tempo, todo o resto.

Tanto o conteúdo, como a forma fílmica de Ilha das Flores, nos desloca de lugares conhecidos, nos mobiliza rumo à reflexão, encanta e nos dá arrepios, porque interroga a verdade.

É dentro desta perspectiva que se insere uma visão de mundo sistêmica. Trata-se de um pensamento por processos que enfatiza muito mais as relações do que as entidades isoladas e, sobretudo, entende os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais – na sua interdependência e interconexões.

Pensar dessa maneira é ultrapassar as distinções disciplinares convencionais, vendo-as em termos de relações e de integração em constante dinamismo. É também buscar saídas para a escola, cuja forma de organizar o saber baseia-se em uma visão de mundo fragmentada, reduzindo o estudo de fenômenos complexos a seus componentes básicos.

A pedagogia ecológica, parece-me, visa transformar tanto a organização espacial/temporal da escola, como também a organização curricular, hoje possível em função da Lei de Diretrizes e Base da Educação 93.94/96. É, sem dúvida, uma proposta radical de transformação.

A nova LDB sob o princípio da flexibilidade e da autonomia confere às escolas a responsabilidade de formular e implementar a organização escolar, estimulando o aparecimento de novas identidades educativas de acordo com suas propostas pedagógicas. Nesse sentido, cabe a manifestação da pedagogia ecológica através de uma prática de ensino que se faz por intermédio de projetos trans/multi/interdisciplinares.

É preciso, no entanto, despir-se do modelo taylorista de organização, apoiado nas concepções cartesianas-newtonianas, para só assim conseguir compreender do que se trata um trabalho pedagógico, que não é feito pela justaposição de disciplinas porque pretende construir uma visão sistêmica de mundo. É isso que nos conta Ilha das Flores.

Visão Sistêmica I

Dias atrás, me propus, juntamente com você, leitor deste blog, iniciar a construção do conceito e da metodologia do que chamo aqui de pedagogia ecológica.

Na primeira postagem introduzi este assunto, na segunda comecei a conversa destacando o pensamento mecanicista/newtoniano para fazer um contraponto com o pensamento sistêmico, o qual a pedagogia ecológica se apóia. Hoje vou dar continuidade a esta reflexão apresentando o que Fritjof Capra diz sobre a visão sistêmica de mundo.

Capra que o padrão básico de organização de todo e qualquer sistema que vive é manifestado por intermédio de uma rede. Por exemplo: ecossistemas são redes de organismos; organismos são redes de células; células ,por sua vez, são redes de moléculas. A característica chave das redes de vida é a autogeração. Isso significa dizer que em uma célula todas as estruturas biológicas são produzidas, reparadas e regeneradas de forma contínua por uma rede de reações químicas.

Assim, diz ele, redes vivas em comunidades humanas são as redes de comunicação. A comunicação, que a meu ver seria melhor dizer linguagem, cria pensamentos e significados, constituindo sujeitos e por eles sendo constituída de forma continua e ininterrupta. “ À medida que comunicações continuam a se desenvolver na rede social, eventualmente produzirão um sistema compartilhado de crenças, explicações, valores – um contexto comum de significados, conhecidos como cultura o qual é continuadamente sustentado por comunicações adicionais. É através da cultura que os indivíduos adquirem identidade como membros da rede social.”

Então, para compreender o que significa visão sistêmica precisamos entender que sistema tem a ver com rede.







Se pegarmos uma rede de pesca, ou até mesmo uma teia, e olharmos atentamente perceberemos as interconexões e o como é difícil ou mesmo impossível precisar o ponto inicial da teia ou da rede ou o ponto que as finalizou. Além disso, teias e redes são complexas, portanto, não são lineares.

Não linearidade, complexidade, interconexões, teias ou redes , são alguns conceitos básicos que constroem o pensamento sistêmico.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Lembremos da visão de mundo mecanicista/newtoniana

Hoje, proponho lembrarmos, mesmo que de forma breve, a origem da visão de mundo mecanicista/newtoniana e compreender o quanto ela se distancia de uma visão de mundo sistêmica, fundamento da pedagogia ecológica.

No século XVII, René Descartes, brilhante matemático, considerado fundador da filosofia moderna, resolveu construir uma ciência completa da natureza cujos princípios fundamentais dispensariam a demonstração. Ele tinha convicção no conhecimento científico. Para ele “toda ciência é conhecimento certo e evidente”. A crença na certeza do conhecimento científico está na própria base da filosofia cartesiana e na visão de mundo dela derivada, o que levou ao cientificismo típico da cultura ocidental. O método científico virou verdade, o que significa dizer, considerado o único meio válido de compreensão do universo. Para ilustrar, assista a partes do filme Ponto de Mutação - Modelo de Cosmo e Ponto de Mutação - Pensamento Mecanicista .

Descartes acreditava que a chave para a compreensão do universo era a sua estrutura matemática; para ele, a ciência era sinônimo de matemática. Mas como construir uma ciência natural completa e exata? Por meio de um método. Um método de raciocínio (daí o racionalismo) que Descartes divulgou em seu mais famoso livro Discurso do método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. O objetivo era o de apontar o caminho para se chegar à verdade científica.

O método de Descartes é analítico, o que consiste em decompor pensamentos e problemas em suas partes componentes e em dispô-las em uma ordem lógica. Esse método analítico de raciocínio é a maior contribuição de Descartes ao pensamento científico moderno e provou ser extremamente útil no desenvolvimento de teorias científicas e na concretização de complexos projetos tecnológicos. O problema é que ele também levou à fragmentação característica do nosso pensamento em geral e das nossas disciplinas acadêmicas e,sobretudo, levou-nos a acreditar que todos os aspectos dos fenômenos complexos podem ser compreendidos se reduzidos às suas partes constituintes.

Outra conseqüência do cartesiasismo foi a devastadora destruição do meio ambiente, percebida de forma aguda nos dias atuais. Isso foi possível porque a natureza era entendida como um sistema mecânico – uma máquina - que deveria ser dominada e controlada pela ciência.

Mas Descartes não estava sozinho nessa empreitada, ao contrário, apesar de seu grande esforço, ele não pode fazer mais do que esboçar as linhas gerais de sua teoria dos fenômenos naturais. Quem completou o seu sonho foi Isaac Newton. Newton desenvolveu uma completa formulação matemática da concepção mecanicista da natureza realizando uma síntese das obras de Copérnico e Kepler, Bacon, Galileu e Descartes.

A física newtoniana forneceu um sólido alicerce do pensamento científico até boa parte do século XX. Na obra Os princípios matemáticos de filosofia natural compreendem um sistema de definições, proposições e provas que os cientistas consideraram a descrição correta da natureza por mais de duzentos anos.

A teoria newtoniana foi capaz de explicar o movimento dos planetas, da lua e cometas nos mínimos detalhes, assim como o fluxo das marés e vários outros fenômenos relacionados com a gravidade. Com o sucesso e aceitação da visão mecanicista de mundo, a física tornou-se a base de todas as ciências.

Os princípios da mecânica newtoniana foram aplicadas inclusive nas ciências da sociedade humana. Locke desenvolveu sua teoria da natureza humana e depois aplicou-a aos fenômenos sociais. Tal como os átomos de um gás estabelecem um estado de equilíbrio, também os indivíduos humanos se estabilizariam numa sociedade num “estado de natureza”. Assim, a função do governo não seria impor suas leis às pessoas, mas descobrir e fazer valer as leis naturais que existiam antes de qualquer governo ter sido formado. Para Locke essas leis naturais incluíam a liberdade e a igualdade entre todos os indivíduos assim como o direito à propriedade, que representava os frutos do trabalho de cada um.

Essas idéias tornaram-se a base para o sistema de valores do Iluminismo e tiveram uma forte influência sobre o desenvolvimento do moderno pensamento econômico e político. Individualismo, direito de propriedade, mercados livres e governo representativo são ideais que podem ser atribuídos a Locke.

Capra nos conta em seu livro o Ponto de Mutação que “no final do século XIX, a mecânica newtoniana tinha perdido seu papel de teoria fundamental dos fenômenos naturais. Os conceitos da eletrodinâmica de Maxwell e da teoria da evolução de Darwin superavam claramente o modelo newtoniano e indicavam que o universo era muitíssimo mais complexo do que Descartes e Newton haviam imaginado. Não obstante, ainda se acreditava que as idéias básicas subjacentes à física newtoniana, embora insuficientes para explicar todos os fenômenos naturais, eram corretas. As primeiras décadas do século XX, mudaram radicalmente essa situação. Duas descobertas no campo da física, culminando na teoria da relatividade e na teoria quântica, pulverizaram todos os principais conceitos de visão de mundo cartesiana e da mecânica newtoniana. A noção de espaço e tempo absolutos, as partículas sólidas elementares, a substância material fundamental, a natureza estritamente causal dos fenômenos físicos e a descrição objetiva da natureza - nenhum desses conceitos pôde ser estendido aos novos domínios em que a física agora penetrava.” Capra,2001, pg.69

O início da física moderna foi marcada por Albert Einstein. Ele introduziu duas tendências revolucionárias no pensamento científico. Uma foi a teoria especial da relatividade; a outra, um novo modo de considerar a radiação eletromagnética, que se tornaria característico da teoria quântica, a teoria dos fenômenos atômicos. Mas o surpreendente foram as conclusões que chegaram os cientistas a partir dessa teoria:

“a descoberta do aspecto dual da matéria e do papel fundamental da probabilidade demoliu a noção clássica de objetos sólidos. A nível subatômico, os objetos materiais sólidos da física clássica dissolvem-se em padrões ondulatórios de probabilidades. Esse padrões, além disso, não representam probabilidades de coisas, mas probabilidades de interconexões. (...) Portanto, as partículas subatômicas não são ‘coisas’ mas interconexões entre ‘coisas’, e essas ‘coisas’, por sua vez, são interconexões entre outras ‘coisas’, e assim por diante.” Capra,2001,pg.75

O conhecimento,acima descrito, nos permite analisar a nossa própria vida cotidiana. Embora possa ser a das mais comuns, é uma vida em relação entre vidas. Só fazemos sentido em relação a alguém, a uma situação, a um contexto. Sozinhos não somos coisa nenhuma, portanto, não existimos. Nesse sentido, a vida individual é uma particularidade da vida social, e mesmo assim, continuará sendo sempre uma vida social.

Poderíamos dizer que a vida social é uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados. Nenhuma das vidas individuais de qualquer parte dessa teia é fundamental; todas elas decorrem da vida individual das outras partes do todo, e a coerência total de suas inter-relações determina a estrutura da teia.

Muito antes, Karl Marx em seus Manuscritos Econômicos-Filosóficos disse, de outra forma, a mesma coisa: “o indivíduo é o ser social. A exteriorização da sua vida – ainda que não apareça na forma imediata de uma exteriorização de vida coletiva, cumprida em união e ao mesmo tempo com outros – é, pois, uma exteriorização e confirmação da vida social. A vida individual e a vida genérica do homem não são distintas, por mais que, necessariamente, o modo de existência da vida individual seja um modo mais particular ou mais geral da vida genérica ,ou quanto mais a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou geral.” Marx, 1974,pg.76

É preciso compreender que interconexões, multiplicidade, complexidade, teia dinâmica de relações e probabilidades , são conceitos que começam a compor discussões, pesquisas, colóquios de diversas áreas do conhecimento. Um novo modo de organizar o saber está sendo engendrado, daí a boa vinda para a pedagogia ecológica.

Assim como a percepção de mundo da Idade Média deu lugar a da Idade Clássica e esta cedeu passagem para a Modernidade - como nos contou Foucault em seu livro As palavras e as coisas - estamos diante de algo novo, ainda embrionário, que corrói nossas certezas a cada novo dia.

Diante de uma prática de ensino que valoriza:

  • Um conhecimento dividido por disciplinas estanques;
  • Um conteúdo dividido segundo sua complexidade: primeiro o mais simples, depois o mais complexo;
  • Em geral, não contemplando estudos oriundos de pesquisas mais avançadas.

Existe uma questão: como a escola irá contribuir com a formação de pessoas que vivem e viverão, cada vez mais, imersas nesse mundo complexo, sem certezas e determinismos?

Este é um grande desafio a ser solucionado pela pedagogia ecológica tendo em vista uma prática de ensino por meio de projetos trans/interdisciplinares.

Bibliografia:

Capra, F. O Ponto de Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura
emergente. 22a edição.São Paulo: Cultrix, 2001.

Foucault,M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 6a edição. São Paulo: Martins Fontes,1995.

Marx,K. Manuscritos Econômicos e Filosóficos.In: Os Pensadores. São Paulo: Abril,1974.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O Início

Não fui eu que cunhei o termo pedagogia ecológica, tampouco sei quem o fez. Acho até engraçado a criatividade do pessoal da área educacional. Há de tudo: pedagogia da diferença, a do conflito, a tradicional, a crítica dos conteúdos, a libertária... enfim... ecológica é mais uma a compor o rol desta listagem sem fim. Por outro lado, também considero válido, já que cada nome que adjetiva o termo pedagogia possui uma importância ao buscarem ser ouvidos, separados e diferenciados dos demais.

A pedagogia ecológica tem sido forjada por inúmeras pessoas em diferentes lugares. Acredito, no entanto, que o mais expressivo destas pessoas seja o Fritjof Capra, autor dos famosos livros O Tao da Física e o Ponto de Mutação e , sobretudo o mais recente, o Alfabetização Ecológica. Outra importante contribuição é do educador ambientalista David Orr que escreveu A Terra em Mente ambos são diretores do Centro para Ecoalfabetização localizado em Berkley Califórnia Estados Unidos da América.

O grande objetivo da pedagogia ecológica parece ser o de construir um mundo sustentável a partir do conhecimento da natureza, daí a ênfase da alfabetização, no sentido de saber o b-a-bá da botânica, da zoologia, enfim, dos processos que regem o ambiente natural que estamos imersos.

Provavelmente há diferenças entre as diversas propostas para designar um ensino/aprendizagem que utilize o termo ecológico (alfabetização ecológica, a pedagogia ecológica, a eco-escola , ecoeducador ), todavia, penso que existe consenso em relação a necessidade de se construir uma visão de mundo sistêmica na qual conceitos como teia dinâmica de relações, multiplicidade, interconexão e probabilidade , são absolutamente importantes para fazer um contraponto com a nossa confortável visão de mundo mecanicista/newtoniana.

A pedagogia ecológica: uma nova onda?

A pedagogia ecológica parece ser mais uma nova onda que se levanta arrebentando com força na área educacional, porém, a meu ver, ela traz consigo conceitos e fundamentos que apesar de não serem novos se encaixam muito bem no momento social/político da pós modernidade.

Esse blog pretende ser um espaço de reflexão a respeito dos conceitos, pressupostos e iniciativas da pedagogia ecológica visando contribuir com a sua propagação e estudo.


Espero você nesta empreitada! Forte Abraço