sábado, 24 de maio de 2008

Primeiros caminhos para uma Eco-Escola

Dia anterior mencionei a possibilidade de construir uma Eco-Escola cujo fundamento seria a pedagogia ecológica. Não conheço nenhuma. Tenho conhecimento de empresas ou ONGs cujo objetivo é a educação ambiental e que se denominam Eco-Ecolas porque prestam serviços para instituições escolares por intermédio de programas de ensino.

Quando faço referência a uma Eco-Escola estou pensando em uma instituição escolar de Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio) que tenha matriz curricular, plano escolar, proposta pedagógica apoiada em uma pedagogia ecológica, de acordo com a LDB , cuja estrutura arquitetônica e funcionamento dos espaços/tempos estejam de acordo com uma comunidade sustentável.

Se nesses moldes ainda não encontrei nenhuma por aí, resta-me (e lhe convido a fazer o mesmo) pensar em como seria possível construir uma escola ecológica ou Eco-Escola apoiada na pedagogia ecológica ou quem sabe em uma eco-pedagogia, por que não ?

Para nos ajudar a ter idéias, apresento aqui o Centro de Ecoalfabetização , uma organização sem fins lucrativos, localizada em Berkeley, Califórnia, EUA, cujos diretores são: David Orr e Fritjof Capra. O objetivo deles é (na região em que se encontram, Área da Bahia) dar suporte a escolas que queiram oferecer experiências sobre o mundo natural para crianças, através de subvenções, atividade educacionais e um programa de publicações, visando enfrentar o desafio de criar comunidades sustentáveis, ou seja, comunidades que são projetadas de tal modo que os seus modos de vida, negócios, economias, estruturas físicas e tecnologias, não interfiram com a inerente habilidade da natureza para sustentar a vida.

É possível encontrar esclarecimentos do trabalho do Centro de Ecoalfabetização por intermédio do livro Ecoalfabetização, preparando o terreno Neste livro os diferentes autores, ligados ao Centro, abordam temáticas interessantes, nos dando indicações para uma possível efetivação da pedagogia ecológica em uma EcoEscola.

O primeiro objetivo do trabalho educacional do Centro de Ecoalfabetização é oferecer recursos para que seja construído o entendimento a respeito dos princípios da organização dos ecossistemas que sustentam a teia da vida. Isso é designado por eles de alfabetização ecológica ou ecoalfabetização, dizendo de um outro modo, o importante é ensinar os princípios da ecologia que para Fritjof Capra estão contemplados nos seguintes conceitos:

Redes = Todos os membros de um ecossistema são interligados em uma vasta e intricada rede de relacionamentos: a teia da vida.

Sistemas Alinhados = Através da natureza, nós encontramos vários níveis de estruturas de sistemas aninhados dentro de outros sistemas. Cada sistema forma um todo integrado com uma fronteira, ao mesmo tempo em que cada um faz parte de um todo maior.

Ciclos= As interações entre membros de uma comunidade ecológica envolvem a troca de recursos em ciclos contínuos, de forma que todo resíduo é reciclado por cooperação generalizada e incontáveis formas de parcerias.

Fluxos= O fluxo constante de energia solar sustenta a vida e dirige os ciclos ecológicos.

Desenvolvimento= O desdobramento da vida, que é manifestado como desenvolvimento e aprendizagem a nível individual e uma evolução ao nível das espécies, envolve uma interação de criatividade e adaptação mútua, na qual organismos e meio ambiente evoluem em conjunto.

Equilíbrio Dinâmico=Todos os ciclos ecológicos agem como um “círculo de realimentação”, de forma que a comunidade ecológica continuamente regula e organiza a si própria.”

Isso tudo tem a ver com uma visão de mundo por sistemas. Os tais conceitos de complexidade, multiplicidade, rede ou teia, não linearidade, interconexões estão contemplados nos acima citados por Capra.

Para resumir, teríamos que começar nossa pedagogia ecológica e , portanto, nossa Eco-Escola com uma frase: ver o todo no um !

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A crise planetária e as mudanças no ensino

Continuando.... A visão sistêmica de mundo, ou seja, o modo de compreender fenômenos sociais ou naturais como sendo sistemas complexos é o pressuposto de uma pedagogia que se pretende ser ecológica. Fazem parte desta visão de mundo conceitos, tais como: complexidade, multiplicidade, não linearidade, rede ou teia, interconexões, probabilidade , dentre outros.

Tudo isso que discutimos até aqui é muito importante nos tempos atuais, porque talvez a sobrevivência dos seres humanos dependa da mudança de paradigma que está em curso. Digo sobrevivência porque colocamos a espécie humana em risco ao criarmos toda esta parafernália tecnológica. Para saber mais a respeito da situação crítica que o planeta está vivendo, assista ao documentário Mudanças do Clima, Mudanças de Vidas: como o aquecimento global já afeta o Brasil do Greenpeace.

Segundo David Orr (educador ambientalista, um dos diretores do Centro para Ecoalfabetização localizado em Berkley, Califórnia, E.U.A.) as novas gerações precisarão desmontar o modo de pensar, os saberes e poderes que forjaram a industrialização da Terra, porque vivemos uma emergência planetária. As gerações futuras precisarão: estabilizar a população mundial; fixar e depois reduzir a emissão de gases que ameaçam mudar o clima — proteger a diversidade biológica; reverter a destruição de florestas e conservar o solo, cuja erosão diária atinge milhões de toneladas; utilizar melhor a energia e os materiais disponíveis; aprender a usar a energia solar sob todas as suas formas; eliminar a poluição e o desperdício; aprender a administrar recursos renováveis e a iniciar a imensa tarefa de restaurar, da melhor forma, os danos causados à Terra nos últimos 200 anos de industrialização.

Para Orr, frear esta situação caótica somente enfrentando o desafio da educação. A tarefa não é nada fácil, porque a organização do saber e do funcionamento de instituições de ensino, sejam escolas básicas ou universidades, se apóiam, até os dias de hoje, no modelo cartesiano/newtoniano e , consequentemente, no método taylorista.

Frederick W. Taylor, no início do século XX, elaborou um modelo que organizou e definiu o trabalho dos operários nas máquinas. Esse modelo produtivo instalado em todo o mundo ocidental, caracteriza-se por uma divisão do tempo, especialização e distinção estanque das atividades, trabalho regularmente prescrito, hierarquia das funções, das disciplinas, dos trâmites, normas de desempenho, controles padronizados, produção em massa de produtos em série.

Observando a escola ainda encontraremos este mesmo modelo atuando de diferentes formas : hora de entrada, o sinal para o intervalo, hora para ir ao banheiro, hora de português, a hora de falar imposta pelo professor, sinal para a saída. Esse tipo de organização temporal ,herança das comunidades monásticas , e adotada pela indústria, foi bastante útil para os propósitos do capitalismo de até então. Do mesmo modo, a disciplina escolar e a organização espacial dos alunos ,também de origem longínqua ,serviram aos interesses do modelo taylorista: as carteiras enfileiradas, comuns na grande maioria de salas de aula; “são espaços que realizam a fixação e permitem a circulação; recortam segmentos individuais e estabelecem ligações operatórias; marcam lugares e indicam valores; garantem a obediência dos indivíduos, mas também uma melhor economia do tempo e dos gestos.” (Foucault/1995/pg.135)

O local de trabalho e, portanto, dos assalariados, segundo o modelo taylorista é especificado por atividades prescritas, repetitivas, pouco qualificada, sujeita à separação entre procedimentos ,concepção e a execução. Do mesmo modo a escola mantinha (e sempre quer continuar a manter) seus alunos calados, memorizando atividades que se repetiam à exaustão, sujeitos aos humores de seus professores que , em contrapartida, estavam sujeitos aos humores da política escolar.

Eis que não dá mais para ser assim! David Orr nos diz no artigo Escolas para o Século XXI que “as habilidades, aptidões e atitudes necessárias para industrializar a Terra não são necessariamente as mesmas que vamos precisar para curar a Terra ou para estabelecer economias e comunidades sustentáveis. Os grandes desafios ecológicos requerem uma alteração das matérias, do sistema e dos objetivos do ensino, em todos os níveis (...).”

É possível que a pedagogia ecológica possa dar respostas para a construção de Eco Escolas organizadas de um modo completamente diferente das escolas de até então.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Visão Sistêmica II – Um tomate

Um documentário que gosto muito é o Ilha das Flores de Jorge Furtado e sempre que pretendo abordar a visão sistêmica e , portanto, construir conceitos tais com os de interelações, interconexões, redes e complexidade, em cursos que coordeno, sejam presenciais ou a distância , eu sempre indico este documentário que fala de um tomate. Confira o curta-metragem: Ilha da Flores – parte I e Ilha da Flores – Parte II .

Um tomate. Ora bolas, um tomate é um tomate. Assim, simples e banal. Portanto, sem pretensões de desencadear grandes discussões.Seria correto pensar o tomate dessa forma se, e somente se, nosso modo de compreender as coisas assumisse enquanto pressuposto a linearidade, a fragmentação, o reducionismo. Mas, em Ilha das Flores, Jorge Furtado, consegue ver no um o todo, razão pela qual um tomate é uma rede de conexões.

Dobra sobre dobra: o tomate jogado no lixo é a Ilha das Flores das crianças e mulheres que se alimentam da comida rejeitada pelos porcos. É também o Sr.Suziku, é a Dona Anete. É a troca, a mercadoria, a alimentação, o dinheiro. É a ilha, Porto Alegre, o cultivo, o supermercado, o perfume, as flores... É o tomate, vegetal e, ao mesmo tempo, todo o resto.

Tanto o conteúdo, como a forma fílmica de Ilha das Flores, nos desloca de lugares conhecidos, nos mobiliza rumo à reflexão, encanta e nos dá arrepios, porque interroga a verdade.

É dentro desta perspectiva que se insere uma visão de mundo sistêmica. Trata-se de um pensamento por processos que enfatiza muito mais as relações do que as entidades isoladas e, sobretudo, entende os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais – na sua interdependência e interconexões.

Pensar dessa maneira é ultrapassar as distinções disciplinares convencionais, vendo-as em termos de relações e de integração em constante dinamismo. É também buscar saídas para a escola, cuja forma de organizar o saber baseia-se em uma visão de mundo fragmentada, reduzindo o estudo de fenômenos complexos a seus componentes básicos.

A pedagogia ecológica, parece-me, visa transformar tanto a organização espacial/temporal da escola, como também a organização curricular, hoje possível em função da Lei de Diretrizes e Base da Educação 93.94/96. É, sem dúvida, uma proposta radical de transformação.

A nova LDB sob o princípio da flexibilidade e da autonomia confere às escolas a responsabilidade de formular e implementar a organização escolar, estimulando o aparecimento de novas identidades educativas de acordo com suas propostas pedagógicas. Nesse sentido, cabe a manifestação da pedagogia ecológica através de uma prática de ensino que se faz por intermédio de projetos trans/multi/interdisciplinares.

É preciso, no entanto, despir-se do modelo taylorista de organização, apoiado nas concepções cartesianas-newtonianas, para só assim conseguir compreender do que se trata um trabalho pedagógico, que não é feito pela justaposição de disciplinas porque pretende construir uma visão sistêmica de mundo. É isso que nos conta Ilha das Flores.

Visão Sistêmica I

Dias atrás, me propus, juntamente com você, leitor deste blog, iniciar a construção do conceito e da metodologia do que chamo aqui de pedagogia ecológica.

Na primeira postagem introduzi este assunto, na segunda comecei a conversa destacando o pensamento mecanicista/newtoniano para fazer um contraponto com o pensamento sistêmico, o qual a pedagogia ecológica se apóia. Hoje vou dar continuidade a esta reflexão apresentando o que Fritjof Capra diz sobre a visão sistêmica de mundo.

Capra que o padrão básico de organização de todo e qualquer sistema que vive é manifestado por intermédio de uma rede. Por exemplo: ecossistemas são redes de organismos; organismos são redes de células; células ,por sua vez, são redes de moléculas. A característica chave das redes de vida é a autogeração. Isso significa dizer que em uma célula todas as estruturas biológicas são produzidas, reparadas e regeneradas de forma contínua por uma rede de reações químicas.

Assim, diz ele, redes vivas em comunidades humanas são as redes de comunicação. A comunicação, que a meu ver seria melhor dizer linguagem, cria pensamentos e significados, constituindo sujeitos e por eles sendo constituída de forma continua e ininterrupta. “ À medida que comunicações continuam a se desenvolver na rede social, eventualmente produzirão um sistema compartilhado de crenças, explicações, valores – um contexto comum de significados, conhecidos como cultura o qual é continuadamente sustentado por comunicações adicionais. É através da cultura que os indivíduos adquirem identidade como membros da rede social.”

Então, para compreender o que significa visão sistêmica precisamos entender que sistema tem a ver com rede.







Se pegarmos uma rede de pesca, ou até mesmo uma teia, e olharmos atentamente perceberemos as interconexões e o como é difícil ou mesmo impossível precisar o ponto inicial da teia ou da rede ou o ponto que as finalizou. Além disso, teias e redes são complexas, portanto, não são lineares.

Não linearidade, complexidade, interconexões, teias ou redes , são alguns conceitos básicos que constroem o pensamento sistêmico.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Lembremos da visão de mundo mecanicista/newtoniana

Hoje, proponho lembrarmos, mesmo que de forma breve, a origem da visão de mundo mecanicista/newtoniana e compreender o quanto ela se distancia de uma visão de mundo sistêmica, fundamento da pedagogia ecológica.

No século XVII, René Descartes, brilhante matemático, considerado fundador da filosofia moderna, resolveu construir uma ciência completa da natureza cujos princípios fundamentais dispensariam a demonstração. Ele tinha convicção no conhecimento científico. Para ele “toda ciência é conhecimento certo e evidente”. A crença na certeza do conhecimento científico está na própria base da filosofia cartesiana e na visão de mundo dela derivada, o que levou ao cientificismo típico da cultura ocidental. O método científico virou verdade, o que significa dizer, considerado o único meio válido de compreensão do universo. Para ilustrar, assista a partes do filme Ponto de Mutação - Modelo de Cosmo e Ponto de Mutação - Pensamento Mecanicista .

Descartes acreditava que a chave para a compreensão do universo era a sua estrutura matemática; para ele, a ciência era sinônimo de matemática. Mas como construir uma ciência natural completa e exata? Por meio de um método. Um método de raciocínio (daí o racionalismo) que Descartes divulgou em seu mais famoso livro Discurso do método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. O objetivo era o de apontar o caminho para se chegar à verdade científica.

O método de Descartes é analítico, o que consiste em decompor pensamentos e problemas em suas partes componentes e em dispô-las em uma ordem lógica. Esse método analítico de raciocínio é a maior contribuição de Descartes ao pensamento científico moderno e provou ser extremamente útil no desenvolvimento de teorias científicas e na concretização de complexos projetos tecnológicos. O problema é que ele também levou à fragmentação característica do nosso pensamento em geral e das nossas disciplinas acadêmicas e,sobretudo, levou-nos a acreditar que todos os aspectos dos fenômenos complexos podem ser compreendidos se reduzidos às suas partes constituintes.

Outra conseqüência do cartesiasismo foi a devastadora destruição do meio ambiente, percebida de forma aguda nos dias atuais. Isso foi possível porque a natureza era entendida como um sistema mecânico – uma máquina - que deveria ser dominada e controlada pela ciência.

Mas Descartes não estava sozinho nessa empreitada, ao contrário, apesar de seu grande esforço, ele não pode fazer mais do que esboçar as linhas gerais de sua teoria dos fenômenos naturais. Quem completou o seu sonho foi Isaac Newton. Newton desenvolveu uma completa formulação matemática da concepção mecanicista da natureza realizando uma síntese das obras de Copérnico e Kepler, Bacon, Galileu e Descartes.

A física newtoniana forneceu um sólido alicerce do pensamento científico até boa parte do século XX. Na obra Os princípios matemáticos de filosofia natural compreendem um sistema de definições, proposições e provas que os cientistas consideraram a descrição correta da natureza por mais de duzentos anos.

A teoria newtoniana foi capaz de explicar o movimento dos planetas, da lua e cometas nos mínimos detalhes, assim como o fluxo das marés e vários outros fenômenos relacionados com a gravidade. Com o sucesso e aceitação da visão mecanicista de mundo, a física tornou-se a base de todas as ciências.

Os princípios da mecânica newtoniana foram aplicadas inclusive nas ciências da sociedade humana. Locke desenvolveu sua teoria da natureza humana e depois aplicou-a aos fenômenos sociais. Tal como os átomos de um gás estabelecem um estado de equilíbrio, também os indivíduos humanos se estabilizariam numa sociedade num “estado de natureza”. Assim, a função do governo não seria impor suas leis às pessoas, mas descobrir e fazer valer as leis naturais que existiam antes de qualquer governo ter sido formado. Para Locke essas leis naturais incluíam a liberdade e a igualdade entre todos os indivíduos assim como o direito à propriedade, que representava os frutos do trabalho de cada um.

Essas idéias tornaram-se a base para o sistema de valores do Iluminismo e tiveram uma forte influência sobre o desenvolvimento do moderno pensamento econômico e político. Individualismo, direito de propriedade, mercados livres e governo representativo são ideais que podem ser atribuídos a Locke.

Capra nos conta em seu livro o Ponto de Mutação que “no final do século XIX, a mecânica newtoniana tinha perdido seu papel de teoria fundamental dos fenômenos naturais. Os conceitos da eletrodinâmica de Maxwell e da teoria da evolução de Darwin superavam claramente o modelo newtoniano e indicavam que o universo era muitíssimo mais complexo do que Descartes e Newton haviam imaginado. Não obstante, ainda se acreditava que as idéias básicas subjacentes à física newtoniana, embora insuficientes para explicar todos os fenômenos naturais, eram corretas. As primeiras décadas do século XX, mudaram radicalmente essa situação. Duas descobertas no campo da física, culminando na teoria da relatividade e na teoria quântica, pulverizaram todos os principais conceitos de visão de mundo cartesiana e da mecânica newtoniana. A noção de espaço e tempo absolutos, as partículas sólidas elementares, a substância material fundamental, a natureza estritamente causal dos fenômenos físicos e a descrição objetiva da natureza - nenhum desses conceitos pôde ser estendido aos novos domínios em que a física agora penetrava.” Capra,2001, pg.69

O início da física moderna foi marcada por Albert Einstein. Ele introduziu duas tendências revolucionárias no pensamento científico. Uma foi a teoria especial da relatividade; a outra, um novo modo de considerar a radiação eletromagnética, que se tornaria característico da teoria quântica, a teoria dos fenômenos atômicos. Mas o surpreendente foram as conclusões que chegaram os cientistas a partir dessa teoria:

“a descoberta do aspecto dual da matéria e do papel fundamental da probabilidade demoliu a noção clássica de objetos sólidos. A nível subatômico, os objetos materiais sólidos da física clássica dissolvem-se em padrões ondulatórios de probabilidades. Esse padrões, além disso, não representam probabilidades de coisas, mas probabilidades de interconexões. (...) Portanto, as partículas subatômicas não são ‘coisas’ mas interconexões entre ‘coisas’, e essas ‘coisas’, por sua vez, são interconexões entre outras ‘coisas’, e assim por diante.” Capra,2001,pg.75

O conhecimento,acima descrito, nos permite analisar a nossa própria vida cotidiana. Embora possa ser a das mais comuns, é uma vida em relação entre vidas. Só fazemos sentido em relação a alguém, a uma situação, a um contexto. Sozinhos não somos coisa nenhuma, portanto, não existimos. Nesse sentido, a vida individual é uma particularidade da vida social, e mesmo assim, continuará sendo sempre uma vida social.

Poderíamos dizer que a vida social é uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados. Nenhuma das vidas individuais de qualquer parte dessa teia é fundamental; todas elas decorrem da vida individual das outras partes do todo, e a coerência total de suas inter-relações determina a estrutura da teia.

Muito antes, Karl Marx em seus Manuscritos Econômicos-Filosóficos disse, de outra forma, a mesma coisa: “o indivíduo é o ser social. A exteriorização da sua vida – ainda que não apareça na forma imediata de uma exteriorização de vida coletiva, cumprida em união e ao mesmo tempo com outros – é, pois, uma exteriorização e confirmação da vida social. A vida individual e a vida genérica do homem não são distintas, por mais que, necessariamente, o modo de existência da vida individual seja um modo mais particular ou mais geral da vida genérica ,ou quanto mais a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou geral.” Marx, 1974,pg.76

É preciso compreender que interconexões, multiplicidade, complexidade, teia dinâmica de relações e probabilidades , são conceitos que começam a compor discussões, pesquisas, colóquios de diversas áreas do conhecimento. Um novo modo de organizar o saber está sendo engendrado, daí a boa vinda para a pedagogia ecológica.

Assim como a percepção de mundo da Idade Média deu lugar a da Idade Clássica e esta cedeu passagem para a Modernidade - como nos contou Foucault em seu livro As palavras e as coisas - estamos diante de algo novo, ainda embrionário, que corrói nossas certezas a cada novo dia.

Diante de uma prática de ensino que valoriza:

  • Um conhecimento dividido por disciplinas estanques;
  • Um conteúdo dividido segundo sua complexidade: primeiro o mais simples, depois o mais complexo;
  • Em geral, não contemplando estudos oriundos de pesquisas mais avançadas.

Existe uma questão: como a escola irá contribuir com a formação de pessoas que vivem e viverão, cada vez mais, imersas nesse mundo complexo, sem certezas e determinismos?

Este é um grande desafio a ser solucionado pela pedagogia ecológica tendo em vista uma prática de ensino por meio de projetos trans/interdisciplinares.

Bibliografia:

Capra, F. O Ponto de Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura
emergente. 22a edição.São Paulo: Cultrix, 2001.

Foucault,M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 6a edição. São Paulo: Martins Fontes,1995.

Marx,K. Manuscritos Econômicos e Filosóficos.In: Os Pensadores. São Paulo: Abril,1974.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O Início

Não fui eu que cunhei o termo pedagogia ecológica, tampouco sei quem o fez. Acho até engraçado a criatividade do pessoal da área educacional. Há de tudo: pedagogia da diferença, a do conflito, a tradicional, a crítica dos conteúdos, a libertária... enfim... ecológica é mais uma a compor o rol desta listagem sem fim. Por outro lado, também considero válido, já que cada nome que adjetiva o termo pedagogia possui uma importância ao buscarem ser ouvidos, separados e diferenciados dos demais.

A pedagogia ecológica tem sido forjada por inúmeras pessoas em diferentes lugares. Acredito, no entanto, que o mais expressivo destas pessoas seja o Fritjof Capra, autor dos famosos livros O Tao da Física e o Ponto de Mutação e , sobretudo o mais recente, o Alfabetização Ecológica. Outra importante contribuição é do educador ambientalista David Orr que escreveu A Terra em Mente ambos são diretores do Centro para Ecoalfabetização localizado em Berkley Califórnia Estados Unidos da América.

O grande objetivo da pedagogia ecológica parece ser o de construir um mundo sustentável a partir do conhecimento da natureza, daí a ênfase da alfabetização, no sentido de saber o b-a-bá da botânica, da zoologia, enfim, dos processos que regem o ambiente natural que estamos imersos.

Provavelmente há diferenças entre as diversas propostas para designar um ensino/aprendizagem que utilize o termo ecológico (alfabetização ecológica, a pedagogia ecológica, a eco-escola , ecoeducador ), todavia, penso que existe consenso em relação a necessidade de se construir uma visão de mundo sistêmica na qual conceitos como teia dinâmica de relações, multiplicidade, interconexão e probabilidade , são absolutamente importantes para fazer um contraponto com a nossa confortável visão de mundo mecanicista/newtoniana.

A pedagogia ecológica: uma nova onda?

A pedagogia ecológica parece ser mais uma nova onda que se levanta arrebentando com força na área educacional, porém, a meu ver, ela traz consigo conceitos e fundamentos que apesar de não serem novos se encaixam muito bem no momento social/político da pós modernidade.

Esse blog pretende ser um espaço de reflexão a respeito dos conceitos, pressupostos e iniciativas da pedagogia ecológica visando contribuir com a sua propagação e estudo.


Espero você nesta empreitada! Forte Abraço